Exercícios oculares são mito? O que a ciência diz sobre recuperar a visão com práticas visuais

Em tempos de excesso de telas e jornadas cada vez mais longas diante de dispositivos digitais, cuidar da saúde ocular tornou-se uma prioridade. Nesse contexto, os exercícios oculares têm ganhado espaço, especialmente em redes sociais e sites que prometem a recuperação da visão ou a reversão de problemas oculares de forma natural. Mas será que essas promessas têm base científica ou fazem parte de um mito moderno?

O que são os exercícios oculares?

De maneira geral, os exercícios oculares consistem em práticas que visam estimular a musculatura dos olhos, melhorar a coordenação visual e aliviar sintomas como cansaço, visão turva e desconforto visual. Alguns exemplos incluem:

  • Palming: cobrir os olhos com as palmas das mãos para relaxar;
  • Foco alternado: alternar o olhar entre objetos próximos e distantes;
  • Movimentos direcionais: mover os olhos em círculos ou em direções variadas para estimular mobilidade;
  • Regra 20-20-20: a cada 20 minutos de uso de tela, olhar para algo a 20 pés de distância (cerca de 6 metros) por 20 segundos.

Apesar de parecerem inofensivos e até relaxantes, muitos desses métodos são promovidos como formas de recuperar a visão, o que levanta preocupações entre os especialistas.

Exercícios oculares curam problemas de visão?

É importante esclarecer que exercícios oculares não curam problemas de refração, como miopia, hipermetropia, astigmatismo ou presbiopia. Essas condições envolvem alterações estruturais no olho, como o formato do globo ocular ou da córnea, e não podem ser corrigidas apenas com o fortalecimento dos músculos oculares.

  • A miopia acontece quando o globo ocular é mais longo que o normal, fazendo com que a luz se concentre antes da retina. 
  • A hipermetropia ocorre no sentido oposto, com o olho mais curto e o foco atrás da retina. 
  • O astigmatismo está ligado à curvatura diferentes entre os meridianos.. 
  • Já a presbiopia, que surge após os 40 anos, é a perda gradual da capacidade de foco em objetos próximos, por causa do envelhecimento natural do cristalino.

Nenhuma dessas alterações pode ser revertida com exercícios. O que realmente funciona nesses casos são óculos, lentes de contato ou cirurgias refrativas, como o LASIK.

Quando os exercícios oculares podem ajudar?

Embora não sejam milagrosos, os exercícios oculares podem ter indicações terapêuticas específicas. Um exemplo clássico é o tratamento da ambliopia, ou “olho preguiçoso”, geralmente em crianças. Nesses casos, o oftalmologista pode recomendar o uso de tampões oculares no olho bom, “forçando” o uso do olho com visão mais fraca. Isso ajuda no desenvolvimento da visão durante a infância.

Outro caso é o de insuficiência de convergência, um tipo de estrabismo leve em que os olhos têm dificuldade de trabalhar juntos para focar em objetos próximos. Nesse cenário, alguns exercícios para estímulo da convergência podem ser indicados por profissionais especializados, contribuindo para melhorar a coordenação visual e reduzir sintomas como visão dupla ou dores de cabeça.

No entanto, vale lembrar que nem todo tipo de estrabismo se beneficia desses exercícios. Nos demais casos, o uso de óculos ou intervenções mais específicas podem ser  necessários.

E quanto à fadiga ocular?

A grande vantagem dos exercícios visuais para a maioria das pessoas é a redução da fadiga ocular digital, algo cada vez mais comum na era dos smartphones e computadores. Quando os olhos ficam expostos por longos períodos a luz artificial e foco contínuo em telas, surgem sintomas como:

  • Ardência;
  • Olhos secos;
  • Visão embaçada;
  • Dores de cabeça;
  • Dificuldade para focar.

Nesse contexto, exercícios simples como o foco alternado, o piscar consciente e a regra 20-20-20 podem ajudar a aliviar a tensão, estimular a lubrificação ocular e melhorar o conforto visual, mas não significam tratamento da visão.

O perigo da desinformação

A internet está repleta de conteúdos que prometem reverter a miopia ou abandonar os óculos com exercícios oculares diários. Embora tentadoras, essas promessas muitas vezes se baseiam em relatos isolados, sem comprovação científica, e podem induzir pessoas a adiar ou abandonar tratamentos oftalmológicos sérios.

A automedicação visual, como seguir vídeos na internet para tratar problemas de visão, pode ser perigosa. Isso porque algumas doenças oculares silenciosas, como o glaucoma ou a degeneração macular, podem evoluir sem sintomas claros. O atraso no diagnóstico, em muitos casos,  pode levar a perda permanente da visão.

O que os oftalmologistas recomendam?

A recomendação dos especialistas é clara: exercícios oculares não substituem o acompanhamento oftalmológico. O ideal é fazer consultas periódicas com um oftalmologista, especialmente se:

  • Você sente dificuldade para enxergar de perto ou de longe;
  • Sente dores de cabeça constantes;
  • Está com mais de 40 anos e notou piora na visão de perto;
  • Passa muitas horas por dia em frente às telas.

Além disso, é fundamental manter hábitos saudáveis, como:

  • Dormir bem;
  • Ter uma alimentação rica em nutrientes como vitamina A, C, E e ômega-3;
  • Usar lubrificantes oculares se necessário;
  • Reduzir o tempo de exposição contínua a telas.

Os exercícios oculares não são vilões — mas também não são a cura milagrosa que muitos prometem. Em alguns casos, especialmente terapêuticos, eles podem ajudar na coordenação e conforto visual. No entanto, não existe comprovação científica de que eles recuperem a visão ou eliminem a necessidade de óculos.

Se você se preocupa com sua saúde ocular, o melhor caminho é sempre a orientação profissional. Afinal, enxergar bem é uma parte essencial da nossa qualidade de vida — e merece ser tratada com seriedade.

Consulte um oftalmologista. 

Referência Bibliográfica: EXERCÍCIOS oculares podem ajudar a recuperar a visão?. [S. l.], 2024. Disponível em: https://visaoemfoco.org.br/uploads/arquivos/1720732414-5.PDF. Acesso em: 23 jul. 2025.

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